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Não é o que não pode ser que não é

Junho 12, 2008 · Deixe um comentário

Por que falar sobre rock? Quando é que, de repente, um vagabundo com propensões camaleoas ergue-se das sarjetas misteriosas de onde a luz do poste não chega, para o centro de todas as atenções, para o topo do mundo e de volta a seu exílio de marginal… sim, porque é exatamente essa capacidade de circulação, de trânsito livre, que tanto instiga os amantes de rock. O rock preenche vácuos, é sugado de vácuo social em vácuo social, por eras afora e madrugadas adentro; o rock é reação.

O rock não existe no sentido clássico, no caráter absoluto de uma enciclopédia. A cada virada de esquina o que fora rock já morrera, a cada piscadela os modelos serão outros. É precisamente por tentar capturar um desses instantes efêmeros que precisamos falar sobre rock, domar nem que seja um de seus momentos, guardá-lo no bolso para um dia de “bons e velhos tempos”.

Quando dizemos que o rock é uma reação, e um vagabundo com propensões camaleoas, estamos tentando aferir um conceito que possa abranger todas as suas ramificações. Não há outra forma de caracterizar um “estilo” que já foi apenas dos negros e apenas dos brancos; que já habitou, num momento, torres inatingíveis de pedras preciosas com seu caráter progressivo de exímios e experientes músicos, e noutro, as garagens confusas de músicos de ocasião, de pré-adolescentes que nem conseguiam cultivar a própria barba…

…Que já cantou as glórias das menininhas de dezesseis anos na cama num dia, e lutou pelos direitos das mulheres no outro; que já usou botinas de exército para pregar anarquia; que na época do iê-iê-iê no Brasil, foi fazer sua revolução junto com o samba e o baião. Se todo mundo canta engajado, o rock fala de amor; ou consegue, às vezes, ser engajado exatamente porque fala de amor.

Dizem que o rock está em todos os canais de televisão, moldado para toda a família; que está em festivais de milhões de dólares bancados por companhias de telefonia e pela grande mama Petrobras; no barzinho pé-sujo das gentes de preto, com som abafado, onde não se distingue um acorde distorcido de um grito de refrão; no pub com ar condicionado central das meninas quase pagando peitinho, com banda tocando com retorno via fone. Não. O rock não está lá… foram ver, já passou.

O rock mesmo, esse vapor vagabundo, ninguém sabe o que é. De repente, tenha sido apenas uma vontade, um hormônio, uma descoberta sexual nos ossos do ouvido, uma adolescência reincidente, pois.

Talvez.

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